sábado, 26 de abril de 2014

Desdobramentos em abril chuvoso e frio

Abril tem se revelado um mês bastante chuvoso como é de costume, mas tem apresentado temperaturas abaixo do normal. Com tais condições, muitos apicultores açorianos optam por adiar os desdobramentos para o mês de maio ou ainda lá mais para o verão. Optei por faze-los já em abril por 2 motivos: 1º não farei criação de rainhas (pelo método Doolittle), simplesmente multiplicarei as colonias e esperarei as abelhas criarem naturalmente as suas mestras, isso dará tempo para que a temperatura aumente apesar de já haver alvelos em desenvolvimento. E 2º visto que tenho colmeias reversíveis e o mês de março ter-se mostrado um mini verão cheio de floração, a febre de enxameação veio mais cedo e mostrando-me elas que queria enxamear, desdobro-as eu e não perco efetivo e evito ter mestras de alvéolos de emergência que originariam certamente rainhas de má qualidade. Em um dos desdobramentos a rainha já nasceu. Agora é esperar que esses dias a temperatura suba um pouco para permitir a fecundação.
Colmeia com febre de enxameação em principios de março.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Prevenção de enxameação (método de “arrefecimento do ninho”)

Uma das características da Apis mellifera iberiensis é a sua propensão para a enxameação. Existem algumas formas de prevenir este fenómeno. Abrir o ninho duma colmeia é mexer no coração desta, dai a importância do maneio adequado nesta zona crucial para o bom desempenho da colonia.
A técnica de arrefecimento do ninho é muito utilizada pelos apicultores pois para além de prevenir a enxameação, ainda permite a substituição de ceras. Esta é uma técnica onde quadros com cera alveolada são colocados entre os quadros de ninho. Com isto, retarda-se a enxameação, substitui-se ceras do ninho e impulsiona-se a postura da rainha.
Aqui estão os passos básicos:
·         Ao primeiro sinal de cera branca perto do topo dos quadros de ninho é sinal que se pode começar a utilizar esta técnica de maneio.
·         Deve-se retirar um dos quadros perto do meio da câmara de criação. Este espaço deve preencher-se de abelhas dentro de cerca de cinco minutos. Se isso não acontecer, é muito cedo para introduzir este método porque não há abelhas suficientes para puxar ceras rapidamente. Espere até que a colmeia fique mais forte.
·         Supondo que o espaço vazio se enche de abelhas rapidamente, devemos devolver o quadro para a mesma posição.
·         Retire um quadro de uma das laterais (sem criação) para fora da caixa, e empurre os quadros restantes para o lado, deixando o espaço vazio perto do meio do ninho.
·         Coloque um novo quadro com cera alveolada no espaço vazio. As abelhas vão agora dirigir sua energia para a puxar a cera e preencher o ninho de criação em vez de enxamear.
Notas:
Dependendo da força da colmeia, um ou talvez dois quadros de cera alveolada pode ser adicionado à caixa de ninho. Cada quadro vazio deve ter criação de cada lado de preferência operculada.
Se todos os quadros do ninho já têm criação, deve-se colocar um destes na parte central do sobre-ninho.
Para ser bem-sucedido com este método, talvez você tenha que reabrir o ninho e adicionar novos quadros todas as semanas enquanto durar a temporada de enxameação, ou seja, requer-se um monitoramento constante.
O timing para aplicar esta técnica é muito importante. Isso deve ser feito antes do impulso enxameador começar ou é completamente ineficaz. Por outro lado, se aplicar o método muito cedo pode perturbar o normal funcionamento da criação comprometendo a vigor da colmeia.

 Quando o ninho está dividido (e de facto estará por um período de tempo) necessitará de mais abelhas para manter a criação aquecida. Uma noite fria inesperada logo após a aplicação desta técnica poderia devastar a colônia. Então, se você decidir experimentar este método de controlo de enxameação, deverá fazê-lo com cautela: Ver cuidadosamente a força da colônia e prestar muita atenção as condições climáticas.

(baseado no artigo: http://www.honeybeesuite.com/how-to-open-the-brood-nest/)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Algo pior que varrose...

Uma das alturas mais importantes no panorama da apicultura açoriana começa precisamente por esta altura, mais precisamente no final do inverno e estende-se até à primavera. Trata-se da floração do incenso que origina um mel Monofloral único no mundo. Comercializado a preços mais elevados do que o mel Multifloral, este ‘néctar dos deuses’ pode ser considerado como sendo uma grande dádiva que vem colmatar a falta de “dádivas” a que os apicultores nacionais e em particular os açorianos estão sujeitos por parte do ministério da agricultura e suas sucursais regionais. Quero com esta introdução mostrar o paradoxo que existe entre as boas condições para criar abelhas e as más condições providas por quem deveria ajudar, tudo isto neste espaço geográfico tão pequeno chamado Açores. Ora vejamos do que venho aqui tratar hoje:
  1.       Em S. Miguel nos Açores não se promove como se devia a apicultura de tal modo que sugiro que o laboratório de inseminação artificial de rainhas seja cedido a algum privado que faça uso dele. Se não funciona, feche-se! O mesmo acontecendo com a parte do tratamento das ceras e que se extinga de vez a secção apícola dos serviços de desenvolvimento agrário de S. Miguel. Formações podem e são feitas pela cooperativa Casermel e por outros privados. De resto não há mais utilidade em manter a referida secção apícola que só gasta dinheiro público e não faz absolutamente nada de relevante. Quantas vezes um apicultor se desloca aos referidos serviços para trocar cera e não há ninguém a atender. Queremos registar um apiario e não conseguimos porque não há ninguém que o faça (quando o funcionário está de férias) e reencaminham nos para outro gabinete e lá ninguém percebe de apicultura nem tem os programas para registo e reencaminham nos de novo e nunca mais saímos disso. A vontade não é deixar de registar os apiários? A mim já deu essa vontade. Há ceras no mercado regional que são vendidas sem passarem pela obrigatória esterilização e há pleno conhecimento disso mas não se faz nada. As pesquisas que são necessárias ao desenvolvimento da apicultura local podem e devem ser feitas pela Universidade dos Açores visto que de mais nenhum lado surgem resultados de pesquisas. Se não funciona e só serve para gastar dinheiro ao erário público: Feche-se!
  2.        Não sei que novas medidas de apoio serão dirigidas aos apicultores da região mas espera-se realmente uma franca melhoria em relação ao antigo programa de apoio, a saber, o pro-rural. Este referido programa é a versão açoriana do ProDer mas que foi modificado para atender às especificidades dos Açores. Ou seja, perdeu-se uma grande oportunidade pelo menos no que toca a área apícola. E porque digo isso? Ora vejamos:

  •        No continente português um apicultor apenas precisa de encontrar e contratualizar 2 bons terrenos para implementar 200 colmeias, o mínimo para iniciar uma atividade profissional com potencial para gerar um salário mínimo nacional ao apicultor. Nos Açores, para se obter o mesmo número de colmeias, o apicultor teria de contratualizar no mínimo 8 apiários pois só pode ter 25 colmeias por apiário no máximo. Logo ai o apicultor açoriano fica em desvantagem em relação aos seus colegas continentais. Terá de falar com os donos dos terrenos onde tem as abelhas e pedir a todos que assinem um contrato de cedência por empréstimo. Todos nós sabemos a aversão que um dono de um terreno tem em assinar este tipo de contrato. Se por outro lado o apicultor decidir arrendar os espaços, terá de necessariamente fazer um projeto de maior envergadura para poder pagar as rendas e aí já não seriam 8 apiários mas mais uns quantos. O pro-rural, onde era suposto ajustar o Proder às especificidades dos Açores nada alterou neste ponto e por isso ficamos em clara desvantagem. Não seria vantajoso que se apostasse em apoiar também os pequenos apicultores que não tem possibilidade de ter mais apiarios mas que poderiam melhorar as suas explorações? Não é este país onde mais de 95% dos apicultores são amadores? Apoie-se (digo eu) também  a estes!
    Prespetiva de Financiamento Pro-rural para apicultura.
  •          Um ponto na portaria que regulamentava a atribuição do apoio Pro-rural, (artigo 6º alínea d) obrigava a que o projeto começasse a ter viabilidade económica para gerar um salário mínimo nacional pelo menos volvidos 3 anos do início da implementação do projeto. Não sei como se processa a implementação dum projeto de pecuária mas um projeto apícola nos Açores dificilmente terá essa viabilidade volvidos apenas 3 anos. Eu diria que uma exploração apícola precisaria para gerar tal lucro no mínimo dos mínimos 4 anos. Se não, façamos a seguinte simulação: no 1º ano imaginemos que um apicultor procura comprar enxames de abelhas no mercado fechado dos Açores (não se pode, e bem, importar enxames). Imaginemos que consegue que lhe vendam 20 enxames (acreditem, conseguir 20 enxames num ano, é obra em S. Miguel, imagine-se nas outras ilhas mais pequenas.) No 1º ano não faz desdobramentos pois comprou enxames em núcleos como é normal por estas paragens. No 2º ano imaginemos que tem sorte com as condições climatéricas e consegue desdobrar esse número inicial por 3 resultando em 60 enxames e adquire mais 30 enxames. Ou seja, passa a ter 90 enxames (isto com uma taxa de sobrevivência de 100% que como sabemos é quase impossível). No 3º ano dizia o Pro-rural que era para apresentar resultados, um salário mínimo nacional no mínimo. Com 90 enxames o apicultor depara-se com um dilema: faz desdobramentos e  não tira mel mas atinge as 200 colmeias exigidas, ou tira mel mas não atinge lucro pretendido para pagar o seu salário. Mesmo se optar por fazer apenas um desdobramento por colónia ele conseguirá obter as quase 200 colmeias mas certamente não conseguirá retirar mel suficiente para já no 3º ano gerar no mínimo o seu salário. A agravar tudo isto ainda existe aquela famosa recomendação (quase obrigação) na apicultura: ‘nunca trabalhar sozinho num apiário’, logo, o projeto deverá prever um empregado pelo menos na fase critica. Mas para pagar mais uma pessoa já não se requer apenas 200 colmeias em 8 apiários. Serão necessários muitos mais apiarios e muitas mais colmeias. Como conseguir tudo isso em apenas 3 anos nos Açores? Estava o pro-rural adaptado realmente às especificidades dos apicultores açorianos? Na parte referente a apicultura, diria que este foi um copy past do PRODER, ou seja, não estava adaptado de forma nenhuma à apicultura regional.

 Com todos esses obstáculos ultrapassados, acreditem, é apenas o começo. A burocracia exigida para apresentar e executar um projeto destes é um verdadeiro desafio. E pensava eu que para se ser apicultor tínhamos de saber trabalhar com abelhas. Burrice a minha...
É verdade que nos Açores não temos varroa na maioria das ilhas e é porventura dos últimos sítios do planeta onde ainda não o há, e temos colmeias em criptoméria fantásticas que duram 3 ou 4 vezes mais que as dos colegas continentais e temos excelentes florações praticamente todo o ano e um mel monoflororal de incenso único no mundo. Num Éden como este, adivinhem quem faz de serpente. E viva o parente pobre da agricultura. 



Saudações Apícolas.